O Blog da Escorregadela intelectual (versão 2.0)

04
Mar 10

Vem este post a propósito do último programa do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) na RTP 1 no passado Domingo.

Tive o prazer e a sorte de ter sido aluna de MRS na Faculdade de Direito de Lisboa, no já longíquo ano lectivo de 1994/95. Se havia aula teórica que assistia com prazer, essa era, sem dúvida, a do Prof. MRS. Uma mente brilhante, um discurso fluído, uma pedagogia sem igual, simpatia q.b., MRS lançava o seu charme como ninguém e nenhum aluno lhe conseguia ficar indiferente. A minha turma de aulas teóricas tinha cerca de 250 alunos, mas o Anfiteatro 1 da velhinha FDL enchia-se para ouvir as palavras deste professor e o n.º de gravadores era sempre superior ao n.º de alunos. MRS permitia a gravação das aulas - o seu discurso era muito rápido e difícil de acompanhar e por isso a gravação permitia posteriormente a transcrição das suas aulas - e tinha sempre mil e um gravadores à sua frente. Uma vez, no entusiamo do seu discurso, MRS agitou os braços e foi ver todos os gravadores, entre os quais o meu, lançados para a frente e para o chão, mas MRS não parou de falar e de gesticular. A aula era o mais importante, e nós, os alunos, não nos importámos nada.

MRS cativava tudo e todos à sua volta. Gentil para com os funcionários, afável para com os alunos, respeitável e respeitador para com colegas de academia...

MRS tinha a tradição de realizar um jantar com as suas turmas de alunos. Tive a sorte de estar presente num desses jantares e de ficar sentada em frente a MRS. Não me recordo do jantar, só me lembro de estar em frente de MRS, embevecida, feliz por uma mente como a dele falar comigo sobre ténis, bodyboard - desportos que tínhamos em comum - sobre trivialidades. No meio da conversa, apelidou-me de "La pasionária" (resistente espanhola da Guerra Civil de Espanha que teve a grande frase contra os fascistas "Non pasarón!") porque eu havia convocado uma greve (sempre tive a mania da rebelião). MRS não me criticou, disse que eu tinha o direito de lutar por aquilo em que acreditava e não sofri qualquer represália da parte dele (já da parte de outros professores não posso dizer o mesmo...) pelo facto de ter usado a sua aula para fazer um "quase comício". Desde então que me cumprimentava sempre e nos falávamos, mesmo ele sabendo que a minha cor política não era a mesma da dele.

Passados estes anos, era com agrado que o via na TV, primeiro na TVI e depois na RTP e já antes, o ouvia na TSF com o célebre exame, onde dava notas. Nunca mudou o seu estilo; sempre irreverente, sempre crítico, actual... os recados sublimes que enviava, as críticas acutilantes que fazia, fizeram mossa. MRS conseguiu ser um "opinion maker" e influenciar muito da vida política portuguesa, mesmo estando "reformado". Podia não concordar com tudo o que dizia, mas era a forma como o fazia que me deixava estarrecida.

Lamento que tenha saído da TVI como saiu e que tenha saído da RTP. É um vazio que fica. Espero que regresse em breve...

Ms. Brown às 10:16

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