O Blog da Escorregadela intelectual (versão 2.0)

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Out 09

Acabou agora o debate da RTP sobre o caso das escutas com três directores de jornais e o director de uma rádio. Paulo Baldaia, da TSF, não esteve envolvido no caso das escutas, todos os outros estiveram.

O caso foi lançado com uma manchete do Público e uma outra manchete do Diário de Notícias deu-lhe seguimento. O Expresso podia ter-se metido pelo meio, mas optou por não o fazer.

No meio deste caso todo, o sillygate, como lhe chama o Expresso, a discussão tem baralhado tudo e mais alguma coisa. Mas há aqui duas partes distintas. a política e a jornalística.

Começando pela política, é preciso esclarecer uma coisa muito simples. Houve escutas ou não houve escutas? Este é o ponto de partida de tudo. Se houve escutas, o caso é grave, porque um governo tentou escutar o presidente da república. Se não houve escutas, o caso é grave, porque se tentaram lançar suspeitas graves sobre o governo. Estas são as duas únicas hipóteses.

Pela primeira vez neste debate da RTP houve pessoas a sublinhar um pormenor que faz toda a diferença: Henrique Monteiro, do Expresso, diz que não acredita que o presidente Cavaco Silva não soubesse que Fernando Lima não tivesse falado com um jornalista sobre escutas ou espionagem na Presidência. Mas se o presidente sabia do caso e sabe que o caso é falso, isto confirma uma situação muito grave: que se tentou lançar suspeitas sobre o governo e que Cavaco não tentou travar a situação. Assim, a gravidade é tal que só restaria uma saída ao presidente, que até agora só foi defendida por Garcia Pereira: a demissão.

Se houve escutas, não se percebe como o presidente demitiu o seu assessor de imprensa, não fez uma queixa ao Procurador-Geral da República e deixou o caso andar. Nem como poderia indigitar José Sócrates como primeiro-ministro. O que é certo é que o fez. Na sua declaração, das poucas coisas que se percebeu é que Cavaco disse que em nenhum momento falou em suspeitas de escutas. Estaria a desmentir o caso? Não se percebeu. O que é certo é que tentou mascarar a coisa falando dos e-mails. Quando qualquer estudante do primeiro ciclo sabe que os e-mails são vulneráveis. Talvez os do Pentágono não o sejam. E mesmo esses....

No lado jornalístico da coisa, há que analisar a notícia do Público: baseada em supostas suspeitas de fontes anónimas. Podem ser fontes oficiais da presidência, mas o que é certo é não deram a cara. Neste debate da RTP houve consenso. a notícia estava mal baseada e faltava-lhe sustentabilidade. O único que não concordou foi José Manuel Fernandes. O Público fez um follow up da sua manchete no dia seguinte que referia um suposto assessor do primeiro-ministro que, numa viagem presidencial, se sentou na mesa errada. Paulo Baldaia, da TSF, foi simples neste caso: isso quanto muito é má educação, não é espionagem.

Resta saber como o mail do Público chegou às redacções dos outros jornais. José Manuel Fernandes está a gostar muito de bater neste ponto, mas com isto foge apenas do essencial: se as escutas existiram ou não. O mail diz que foi um assessor do presidente que deu o primeiro passo, mesmo que há 18 meses, para que a notícia fosse publicada, o que aponta para a invenção das escutas. E a demissão do assessor, mesmo que justificada com um "por mim falo eu", parece mais confirmar a versão de que não houve escutas do que outra coisa.

Os e-mails em Portugal são regulados pela lei da correspondência. Ou seja, mesmo que seja correspondência de trabalho, são apenas para os seus destinatários.

O DN e o Expresso tiveram acesso a este e-mail que acaba por mostrar a falta de sustentabilidade da notícia do Público. Havia duas opções. Confirmar que era verdadeiro e dar a notícia de que houve uma tentativa de lançar suspeitas sobre o governo ou optar pelo silêncio. O DN, segundo João Marcelino, conseguiu confirmar que o mail era verdadeiro. E se o é, há interesse público em revelá-lo, porque mostra que houve uma tentativa de lançar suspeitas infundadas. Este foi o argumento do DN. O do Público foi de que tinha a confirmação de que havia suspeitas de escutas. Mas estas suspeitas era mal fundamentadas, o que inquina o caso deste início. 

Para agravar a teoria da conspiração pode-se acrescentar o facto de José Manuel Fernandes ter aparecido em acções de campanha do PSD, de Cavaco Silva ter sido líder do PSD e de não poder ver José Sócrates à frente nem pintado. São teorias da conspiração, apenas, mas são dados que parecem encaixar bem demais. Resta aos protagonistas desmentirem os alegados interesses. Coisa que ainda não o fizeram até agora. Estamos num ponto em que ninguém acredita em escutas ou espionagem em Belém. Sabe-se que foram feitas limpezas electrónicas em Belém e que se descobriu... zero. Falta confirmar oficialmente: Cavaco sabia ou não do caso? Se sabia, porque não o travou? Se não sabia, porque não o desmentiu assim que o Público falou nisso? O caso estava a ficar esquecido, o debate pode tê-lo trazido novamente à tona...

Afinal parece que se confirma. Houve escutas em Belém....

Mr. Heinz às 01:29

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