O Blog da Escorregadela intelectual (versão 2.0)

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Jan 11

No espaço de poucos dias da primeira semana do ano, 3 personalidades conhecidas (umas mais do que outras) do público português faleceram. Duas devido à doença do século, o cancro - o pintor Malangatana e o capitão de Abril, Vítor Alves - e uma assassinada - Carlos Castro.

Ms. Brown ficou chocada com qualquer uma das mortes anunciadas. De uma forma ou de outra eram pessoas públicas, que fizeram algo pela sociedade onde se integravam.

Malangatana era o grande pintor, homem das artes, moçambicano, a que Herman José se referia quando parodiava outra personalidade também desaparecida há pouco tempo, Carlos Pinto Coelho, que tinha uma admiração por África e por este pintor. Foi um pintor que conciliou a cultura indígena com a cultura ocidental colonialista. Teve grande influência cultural e política no seu país e muitas vezes veio a Portugal onde marcou a cultura. Os seus quadros são famosos e retratam o quotidiano moçambicano. Foi uma grande perda para a cultura africana e (também) portuguesa.

Vítor Alves, foi um dos capitães de Abril, talvez o mais diplomático, o mais sensato, o mais ponderado. Esteve na Revolução dos Cravos; integrou o Grupo dos 9; elaborou o Programa do MFA; redigiu o comunicado à nação lido na rádio naquela noite do 25/04/74; fez parte do Conselho de Revolução; foi Ministro sem pasta e com pasta. Enfim, foi uma figura da nossa mais recente história política. Morreu mais um marco histórico.

Por fim, a morte de Carlos Castro. O jornalista da "vida cor-de-rosa". O cronista, crítico, mentor da "Noite dos Travestis" no dia 1/12 para assinalar a Luta contra a Sida, mas também o poeta (sim, a sua carreira começou na poesia quando ganhou um concurso em Angola, seu país natal). Foi, pelo que se sabe uma morte marcada pela violência física, alegadamente perpetrada por um jovem que almejava outros voos - o da fama rápida - e que, aparentemente, pensava ser o Carlos Castro esse meio.

Das três mortes, só uma levantou imenso burburinho, muitos comentários, e muitas opiniões - a do Carlos Castro. Morte polémica como aliás foi a sua vida. Ora, a Ms. Brown, faz-lhe espécie o tipo de comentários que têm sido escritos na internet. Ora uns a defender Carlos Castro, ora outros a defender o jovem que alegadamente o assassinou. Todos, no entender de Ms. Brown descabidos e alguns a roçar a ignorância e boçalidade que ainda grassa neste país retrógrado. Ms. Brown só uma vez se cruzou com Carlos Castro e, do pouco contacto que teve, viu que era uma pessoa afável, até simples, que gostava de conviver com as pessoas. Quanto ao seu lado crítico, mordaz, não reparou, no entanto, era a sua profissão. Se era homossexual, ninguém tinha, ou tem, nada a ver com isso. Se foi para NY com o seu namorado ou pensando que este jovem o era, ninguém tem nada a ver com isso. Agora, dizer-se, como já se disse em alguns comentários, que por ser homossexual estava a pedi-las, ou que teve o que merecia, é chocante, mostra como Portugal continua a ser um país atrasado (o que se reflecte noutras situações). Ninguém sabe o que aconteceu, ninguém pode emitir opiniões, principalmente estas, que se dispensam!

Infelizmente, a morte de Carlos Castro encheu os telejornais, ávidos por escândalos, enquanto que as mortes das outras duas personalidades, foram simplesmente mencionadas - sem directos, sem reportagens sobre a sua vida e obra.

A vida e morte hoje em dia parece só tem valor se estiver associado a um escândalo ou alguma polémica. A vida e morte de pessoas ligadas à cultura/artes, à política ou a alguma actividade de real valor, parece não ter qualquer destaque.

Mal vai um país que distingue as pessoas pelos seus vícios e não pelas suas virtudes!...

 

 

 

Ms. Brown às 11:27

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