O Blog da Escorregadela intelectual (versão 2.0)

06
Mai 10

O texto não é de nenhum dos elementos do Viajar. Más é bom de mais para não partilhar. A autoria do texto é de Fernanda Braga da Cruz, uma aluna de um curso de letras, que ganhou um concurso na cadeira de Gramática Portuguesa. O Viajar não conseguiu apurar qual é a universidade e o curso de Fernanda Braga da Cruz, mas deixa-lhe desde já os parebéns pela imaginação e pelo texto conseguido. Aos nossos viajantes, enjoy!!

 

"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se

encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem

vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido,

feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso

predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco

ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de

linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos,

naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a

oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O

artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse

pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar

alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre

parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que

em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do

substantivo.

Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu

aposento.

Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma

fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla

para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou

a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto

adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.

Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele

sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação

tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu

apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois

estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum

de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre

beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada

vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu

predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na

posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo

o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda

singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou

logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram

gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou

melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e

declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois

olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo

o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se

aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele

predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando

cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu

tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do

substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo

feminino.

O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo

indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo,

resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar

pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada

vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em

conjunção coordenativa conclusiva".

 

Uma vez mais, os parabéns à autora do texto.

 

Mr. Heinz às 15:35

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